Outro dia eu estava observando alguns amigos héteros.

Não, calma. Não estou prestes a dizer que quero virar hétero. Deus me livre. 😅

Mas fiquei reparando em uma coisa que sempre esteve ali e, por algum motivo, eu nunca tinha enxergado.

Eles têm grupos de amigos que existem há vinte, trinta anos.

São aqueles amigos da faculdade.

Do ensino médio.

Da república.

Do futebol.

Do churrasco de domingo.

Eles brigam.

Passam meses sem se falar.

Casam.

Têm filhos.

Mudam de cidade.

E, de alguma forma, continuam pertencendo uns aos outros.

Foi aí que uma pergunta me atravessou.

Será que muitos homens gays da minha geração perderam justamente a fase da vida em que essas amizades costumam nascer?

Enquanto eles construíam relações sendo exatamente quem eram...

...muitos de nós ainda estávamos tentando descobrir se algum dia poderíamos ser nós mesmos.

Passei boa parte da juventude escondendo uma parte enorme de quem eu era.

Naquela época, a preocupação não era construir vínculos profundos.

Era sobreviver.

Era medir palavras.

Era escolher para quem contar.

Era torcer para que ninguém descobrisse antes da hora.

Talvez por isso muitas amizades tenham nascido pela metade.

Ou talvez nem tenham tido a chance de nascer.

Os anos passaram.

A vida mudou.

Hoje conheço pessoas com uma facilidade que meus vinte anos jamais imaginariam.

Aplicativos.

Instagram.

Academia.

Viagens.

Baladas.

Conhecer gente nunca foi tão simples.

Construir amizade, por outro lado...

Tenho minhas dúvidas.

Porque amizade não nasce no primeiro encontro.

Nem no primeiro jantar.

Ela nasce quando duas pessoas continuam aparecendo uma para a outra.

E talvez seja aí que eu tenha começado a refletir.

Não sinto falta de mais amigos.

Também não quero alguém disponível o tempo inteiro.

A vida adulta já é complicada demais para isso.

O que sinto falta é de reciprocidade.

Daquela mensagem que chega sem motivo.

Do "vamos tomar um café?" que parte do outro lado.

Do meme enviado porque alguém lembrou de você.

Da sensação de que a amizade também caminha na sua direção.

Não me incomoda ser o primeiro a chamar.

Nunca me incomodou.

O que cansa é perceber que, às vezes, se você parar de construir...

...a relação parece parar junto.

Talvez seja apenas uma impressão minha.

Talvez eu esteja romantizando um tempo que nunca existiu.

Ou talvez exista uma geração inteira de homens gays que passou boa parte da juventude tentando descobrir quem era...

...e, quando finalmente conseguiu, percebeu que construir amizades profundas já parecia muito mais difícil.

Eu realmente não sei.

Só sei que, ultimamente, tenho valorizado cada vez mais as pessoas que escolhem construir relações, e não apenas vivê-las enquanto são convenientes.

E, de vez em quando, ainda me pego pensando...

Será que a gente chegou atrasado para essa parte da vida?