Uma pessoa escolhe não ter filhos. Outra não quer casar. Uma mulher ama outra mulher. Alguém muda de nome, de roupa, de vida. E, de repente, aparece uma comissão avaliadora que ninguém contratou.

“Mas precisa?”
“Pra que se expor?”
“Não tenho nada contra, mas…”

Impressionante como o “mas” costuma anunciar que a liberdade do outro acabou de incomodar.

Em algum momento, deixamos de conhecer as pessoas e começamos a conferir se elas estão vivendo do jeito que aprovaríamos. Como se cada existência precisasse passar pela nossa análise antes de sair de casa.

Você pode ser quem quiser. Desde que não seja extravagante demais, diferente demais, livre demais. A autenticidade é linda no discurso. Na mesa do almoço, pedem para você pegar leve.

E esse julgamento nem sempre vem de um desconhecido. Às vezes, vem de quem te ama. De quem diz querer o seu bem, mas ficaria muito mais tranquilo se o seu bem tivesse outra roupa, outro namorado ou outros planos para o domingo.

É cansativo perceber que, para algumas pessoas, ser aceito significa apresentar uma versão editada de si mesmo.

Aí a gente aprende a fazer pequenos cortes. Troca uma palavra. Omite um encontro. Guarda uma roupa. Deixa de contar uma felicidade porque já sabe a expressão que vai encontrar do outro lado da mesa.

Até que um dia está tudo aparentemente em paz. Só você ficou faltando.

Quando foi que começamos a tratar as expectativas dos outros como uma dívida nossa?

Não precisamos entender cada escolha para respeitar quem a faz. Nem toda vida precisa fazer sentido para quem está olhando de fora. Aliás, tem gente que mal administra a própria sexta-feira e quer supervisionar a existência alheia.

Podemos discordar, conversar, estranhar. O que não podemos é transformar o nosso desconforto em regra para a vida de alguém.

Porque, enquanto esperamos a aprovação de todo mundo, a vida vai acontecendo. E seria uma pena chegar ao fim dela com excelentes avaliações por ter interpretado uma pessoa que nunca fomos.