Tenho medo do resultado das eleições. Medo do retrocesso, do preconceito ganhando força e de um futuro em que a gente precise voltar a justificar o direito de existir.

Sou um homem gay. Quando ouço discursos que diminuem pessoas LGBT, não consigo tratar aquilo como uma discussão distante. É sobre a minha vida, meu casamento, minha segurança. É também sobre pessoas que têm muito menos proteção e apoio do que eu.

Antes de 2018, eu me contentava com o que conseguia produzir e construir com a força do meu trabalho. Tinha minhas preocupações, meus planos e a vontade de conquistar minhas coisas. A política não ocupava o espaço que ocupa hoje na minha vida.

Isso mudou quando passei a sentir que trabalhar, pagar minhas contas e respeitar os outros não bastava para ter meu próprio direito de ser respeitado reconhecido.

O bolsonarismo me fez sair dessa posição. Passei a me posicionar contra um movimento no qual vejo a hostilidade à diversidade sendo tratada como coragem, e o respeito sendo ridicularizado como fraqueza. Não consigo aceitar que a humilhação de pessoas como eu seja normalizada como uma simples opinião política.

Eu queria poder gastar menos energia me defendendo e mais energia vivendo. Mas também quero poder olhar para o que fiz com a minha voz e reconhecer meus valores ali.

Direitos que ainda precisamos defender

Parte do meu medo vem de entender como importantes conquistas da comunidade LGBT aconteceram no Brasil.

O reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo sexo veio de uma decisão do STF, em 2011. Em 2019, o tribunal reconheceu a omissão do Congresso e determinou o enquadramento da homofobia e da transfobia na Lei do Racismo, até a edição de uma lei específica.

Essas decisões têm força jurídica. Uma eleição não apaga automaticamente esses direitos. Mas considero preocupante que garantias tão básicas tenham exigido que a Justiça respondesse à falta de reconhecimento e de proteção.

Meu receio também vai além do texto de uma lei. Penso em como somos atendidos, na proteção que recebemos quando denunciamos uma violência, nas políticas públicas e no ambiente que se cria quando quem tem poder trata nossa existência como um problema.

Ter um direito reconhecido e conseguir exercê-lo com segurança são coisas que precisam caminhar juntas.

É por isso que o resultado das eleições me afeta tanto. Eu penso em quem vai tomar decisões sobre nossas vidas e no espaço que essas pessoas darão ao respeito ou à intolerância.

Me posicionar tem um preço

Sei que me expor pode afastar clientes, diminuir vendas e provocar ataques. Já perdi seguidores por me posicionar. Para uma conta pequena, cada perda aparece. Seria mentira dizer que não me afeta.

Eu trabalho para fazer essa marca acontecer. Quero vender, crescer e ver as pessoas usando o que crio. Tenho contas, cansaço e dúvidas como qualquer pessoa que tenta manter um negócio.

Mas a Ô bicha! nasceu com um propósito que eu não consigo deixar de lado para tornar a marca mais conveniente.

Ela nasceu para enaltecer pessoas que tantas vezes são diminuídas: pessoas LGBT, negras, neurodivergentes e tantas outras que encontram pouco espaço para serem vistas com respeito.

Quero usar a visibilidade que tenho para ampliar vozes que são ignoradas e abrir espaço para quem costuma ser excluído. Essas pessoas já têm voz, história e muito a dizer. O que frequentemente falta é alguém disposto a ouvir e uma oportunidade de ocupar o centro.

Se eu esconder tudo isso sempre que houver risco de perder uma venda, o propósito da marca vira apenas uma frase bonita no site.

E eu não quero construir a Ô bicha! assim.

O propósito também precisa virar ação

Esse compromisso também aparece nas compras feitas pela nossa loja na Penca, que ajudam uma ONG.

Para mim, isso dá um sentido a mais ao que estamos construindo: a possibilidade de transformar parte desse movimento em apoio a quem realiza um trabalho importante.

Quero que a marca cresça e consiga ampliar esse impacto. Quero que ela seja um espaço em que alguém se reconheça numa estampa, numa história ou numa posição que muitas vezes teve medo de assumir sozinho.

Vou continuar

Não sei exatamente o que vem pela frente. Tenho medo e não vou fingir tranquilidade.

Também não me arrependo de ter me posicionado.

Continuarei falando sobre o que acredito, defendendo o respeito e usando este espaço para apoiar pessoas que merecem viver sem precisar pedir licença para serem quem são.

A Ô bicha! carrega muito de mim. Da minha criatividade, do meu trabalho e da minha vontade de construir alguma coisa que faça sentido.

E faz sentido continuar, mesmo com medo.

Fernando
Criador da Ô bicha!